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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO (???)

Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo, por medo.
Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: ”Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”.Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: O povo unido jamais será vencido - é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o povo tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televisão que o povo prefere. A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse, na montanha, para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os 10 mandamentos.
E há estória do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.. Até que ela o abandonou... Passado muito tempo Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... E que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: Agora você será minha para sempre...pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta. Mas sabia que ela não era confiável. O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras.
As mentiras são doces. A verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O homem moral e a sociedade imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se responsáveis por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo...
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia - são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O mais famoso dos automóveis foi criado pelo governo alemão para o povo: o Volkswagen. Volk, em alemão, quer dizer povo.
O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol...). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de boca-de-forno, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: Caminhando e cantando e seguindo a canção... Isso é tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo não é uma realidade. É uma esperança.

(Ruben Alves - Folha de S. Paulo, 05/05/2002)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Virou pelada? (Tânia Fusco)

Só depois de ter filhos homens consegui entender a magia do futebol e a paixão da torcida. É cega, sem cão guia. Não enxerga um palmo adiante. Justifica tudo. Odeia de morte os adversários. Aprova e celebra o vale tudo em campo, desde que favoreça o time do coração. Gol de mão a favor é sorte, contra é putaria grave. Se o time está ruim, derruba o técnico. Contrata outro e renovam-se as esperanças. Artilheiro que troca de time é traíra. Se voltar, é herói. Campeonato perdido é uma tragédia. Mas a dor passa logo, porque vem nova temporada e, claro, começa tudo de novo.
A razão da torcida é burra. Empurra no grito até time de perneta porque traz na alma a paixão pelo escudo.
Não é muito diferente na política. É só dar um rolé nos comentários dos blogs para ver explícita a paixão da torcida. Resiste e justifica tudo. Da cueca à quebra do sigilo. Já absorveu completamente malas e mensaleiros. Segue fiel, raivosa e acusadora. “Antes de nós, outros fizeram. É jogo das elites. E a privatização de FHC? E o sigilo do painel do ACM? Minha dança virou escândalo porque sou gorda, de cabeça branca e do PT”. Morrem secos, mas não admitem os desacertos de hoje, do time do coração.
Aí é que mora o perigo. Na cegueira. O que devia provocar indignação generalizada fica reduzido à guerra de torcida. Mas no meio desse embate (ou seria empate?) das torcidas organizadas tem um país e um povo tentando carregar no peito o desgastado escudo dos princípios. Poucos que sejam. Os básicos. Não pode roubar, não pode matar. Mentira serve para esconder coisa errada.
Papai e mamãe nos ensinaram: não é porque o outro errou que a gente pode errar também. Lei tem ser cumprida por todinhos da silva – pobre, remediado e rico, nascido na elite ou emergente instalado. Não concorda, faz campanha contra, protesta, luta para mudar. Mas, enquanto estiver valendo tem de cumprir. Simplório, mas real. Não foi com esse discurso que o PT criou corpo e com o santo voto de mais da metade do eleitorado chegou ao poder?
Peraí. A lei nos dá até a folga de silenciar para não se incriminar. Mas mentir continua sendo crime, quando esconde delitos. Boca fechada é uma coisa. Mentir é outra. Seres humanos no exercício de funções públicas – pequenas ou grandes – não podem, digamos, falsear a verdade e descumprir leis.
As torcidas que me perdoem, mas a continuar a cegueira geral, podemos considerar que é perfeito o ceticismo expresso pelo sociólogo experimentado. A diferença entre uns e outros é a seguinte: a direita rouba para si e dá o troco para a causa. A esquerda rouba para a causa e fica com o troco para si. O povo e o país que se danem.


(Tânia Fusco é jornalista)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Brasil

Certa noite, ao entrar em minha sala de aula, vi num mapa-mundi, o nosso Brasil chorar: O que houve, meu Brasil brasileiro? Perguntei-lhe! E ele, espreguiçando-se em seu berço esplêndido, esparramado e verdejante sobre a América do Sul, respondeu chorando, com suas lágrimas amazônicas:
Estou sofrendo. Vejam o que estão fazendo comigo... Antes, os meus bosques tinham mais flores e meus seios mais amores. Meu povo era heróico e os seus brados retumbantes. O sol da liberdade era mais fúlgido e brilhava no céu a todo instante. Onde anda a liberdade, onde estão os braços fortes? Eu era a Pátria amada, idolatrada. Havia paz no futuro e glórias no passado. Nenhum filho meu fugia à luta. Eu era a terra adorada e dos filhos deste solo era a mãe gentil. Eu era gigante pela própria natureza, que hoje devastam e queimam, sem nenhum homem de coragem que às margens plácidas de algum riachinho, tenha a coragem de gritar mais alto para libertar-me desses novos tiranos que ousam roubar o verde louro de minha flâmula.

Eu, não suportando as chorosas queixas do Brasil, fui para o jardim. Era noite e pude ver a imagem do Cruzeiro que resplandece no lábaro que o nosso país ostenta estrelado. Pensei... Conseguiremos salvar esse país sem braços fortes? Pensei mais... Quem nos devolverá a grandeza que a Pátria nos traz? Voltei à sala, mas encontrei o mapa silencioso e mudo, como uma criança dormindo em seu berço esplêndido.

(Redação de uma aluna de Joinvile de Colégio Público)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Apologia do Analfabetismo

Analfabeto é mais lógico.
Não morde (como os cães)
Nem incomoda seus donos;
Não sabe que tem dentes
Nem força de partir coleiras
E correntes.

Analfabeto não gasta livros
Nem papéis nem tintas
E (como cegos) não
Distingue as cores
Por isso não vê
Se tudo está cinzento
Ou verde com bolinhas
Da mesma cor.

Se lhe disserem canarinho
Ele vê canarinho
Mesmo que seja zebra,
Se lhe disserem
Que tudo está colorido
Ele crê (como os crentes),
Como os santos.

Analfabeto é gente,
Cidadão, eleitor
Não protesta, não se imola
Por amor ou por idéias;
Tem (vida) e necessidades,
E cada um por si,
E Deus lá em cima por todos nós.
Analfabeto é mais barato
Não sonha "strogonoffs"
Nem palácios, nem carrões;
E olha os padrões (naturais!)
Que assim foi escrito
E assim é por vontade de Deus
Que (ouve dizer!) nos criou iguais

Analfabeto não conhece "estroboscópio"
Nem outras ignomínias,
Nem invenções hopocondríacas
Como neuroses, Stress, grilos existenciais.
Sua etiologia se resume em fome.
Fome e Fome.
Analfabeto é mais simples, mais pop,
E também Não dói (como a morte)
Que dói na gente, mas não dói
No dono .

(Desconheço o autor)


"Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem!" (Mario Quintana)


"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não vê, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, o pilantra, o corrupto e lacaio das empresas nacionais e internacionais". (Berthold Brecht)