quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.
De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.
Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”.Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.
“Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.
Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”.
Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.
Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.

Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.
Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Rubem Alves – Educador e escritor.
Texto originalmente publicado no caderno “Sinapse”, jornal “Folha de S. Paulo”, em 26/10/2004.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Saudação ao amanhecer

Concentra-te neste dia que desponta!
Pois ele é vida. A própria vida da vida.
Em seu breve curso jazem todas as verdades e realidades de tua existência:
a felicidade de crescer,
a glória de agir,
o esplendor da beleza.
Pois o dia de ontem é apenas um sonho.
E o amanhã uma visão.
Mas o dia de hoje bem vivido,
torna cada dia passado um sonho de felicidade.
E cada amanhã uma visão de esperança.
Concentra-te portanto neste dia,
Neste dia maravilhoso que desponta!
Esta é a saudação a aurora.
(William Osler)
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Reflexão

A paciência é uma qualidade fugaz.
Queremos o que queremos quando queremos.
Felizmente, nossas vontades só são realizadas no momento certo.
Mas a espera nos dá a impressão de que nossas preces não foram ouvidas.
Precisamos acreditar que a resposta virá na hora certa.
Já pensou como nossas vidas seriam diferentes hoje se os pedidos de semanas, meses, anos atrás tivessem  sido atendidos na mesma hora?
Cada um de nós percorre um caminho único, com lições especiais.
Assim como um bebê precisa engatinhar antes de andar,
nós temos de ir devagar, dando os passos certos rumo ao crescimento.
A frustração só existe porque nosso relógio funciona num tempo diferente do de Deus.
Mas podemos ter certeza de que nossas preces
serão atendidas algum dia, em algum lugar, e para o nosso bem.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

sábado, 8 de outubro de 2011

Meu Deus, me dê a coragem

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Pensamento



"Quando eu tinha 5 anos, minha mãe sempre me disse que a felicidade era a chave para a vida. Quando fui para a escola, me perguntaram o que eu queria ser quando crescesse. Eu escrevi "feliz".

Eles me disseram, que eu não entendi a pergunta... e eu lhes disse que eles não entendiam a vida."

=John Winston Ono Lennon=
1940-1980,Inglaterra.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O que mais te surpreende na Humanidade?

Perguntaram ao Dalai Lama…

- O que mais te surpreende na Humanidade?

E ele respondeu:


- Os homens… Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.

sábado, 23 de julho de 2011

Terceira Idade

1- Não se aposente da vida para se tornar a praga da família.
A vida é atividade, e o verdadeiro elixir da eterna juventude é o dinamismo. Não despreze as ocupações enquanto tiver energia para as lutas cotidianas. SE não tiver nada pra fazer vá caminhar, passear no shopping, jogar baralho na praça..qualquer coisa, menos aporrinhar os outros!

2 - Seja independente e preserve a sua liberdade, mesmo que seja dentro de um quartinho.
Quem renuncia ao próprio lar, obriga-se a andar na ponta dos pés, para evitar atritos com noras, genros, netos e outros parentes. Se possível more num flat...
MELHOR USAR SUAS ECONOMIAS PARA TER UM RESTO DE VIDA FELIZ!... NÃO ECONOMIZE NO ITEM “MORADIA”... a próxima vai ser a última e DEFINITIVA!...
Aproveite a penúltima com tudo a que TEM DIREITO!...

3- Mantenha o governo da sua própria bolsa.
Ajude os seus filhos financeiramente, na medida das suas posses; reserve uma parte para emergências. Tenha o melhor plano de saúde que puder pagar. Se você depender do governo, TÁ NO SAL!

4 - Cultive a arte da amizade como se fosse uma planta rara, cercando os familiares e AMIGOS de cuidados, como se fossem flores.
Se a sua memória estiver falhando, anote numa agenda sentimental as datas mais importantes das suas vidas, e compartilhe com eles a alegria de estar presente.
Como você é um velho do século XXI, aprenda a mexer com a Internet: programe todos os aniversários em seu e-mail... ele informará a você com antecedência... e você nunca mais esquecerá nada!

5 - Cuide da sua aparência e seja o mais atraente possível.
Não seja um daqueles velhos relaxados, que exibem caspa na gola do paletó e manchas de gordura na roupa, que revelam o cardápio da semana.
Nunca despreze o uso de água e sabão.
Vá ao salão de beleza uma vez por mês, pelo menos: a moça vai fazer sua unha, seu pé, cabelo e barba... não tem preço ficar ela agradando-lhe por uma gorjeta! VISTA-SE COMO UM LORD!
NADA DAQUELAS BERMUDAS XEXELENTAS, MOLETONS ROSAS E SAPATINHOS DE VELHO...

6 - Seja cordial com os seus vizinhos.
Evite implicar-se com o latido do cachorro, o miado do gato, o lixo fedorento na calçada, ou o volume do rádio. Um bom vizinho é sempre um tesouro, especialmente se os parentes morarem distantes.
SEJA ESPERTO: USE UM MP3 e OUÇA MÚSICA COM FONES DE OUVIDO PARA SE LIVRAR DOS BARULHOS QUE LHE CHATEIAM... UM FRANK SINATRA, JOBIM, CHARLIE PARKER, NAT KING COLE...ACALMARÃO VOCÊ E O FARÃO LEMBRAR DOS BONS TEMPOS... SEM SAUDOSISMO...
SE ESTIVER DEPRESSIVO ATAQUE DE ELVIS, BEATLES, CREEDENCE, ROLING STONES... TUDO DO NOSSO TEMPO

7 - Cuidado com o nariz, e não se intrometa na vida dos filhos adultos.
Eles são seres com cérebro, coração, vontade, e contam com muitos anos para cometerem os seus próprios erros. FECHE A MATRACA!

8 - Fuja do vício mais comum da velhice, que é a "presunção".
A longa vida pode não lhe ter trazido sabedoria. Há muitos que chegam ao fim da jornada, tão ignorantes como no início dela.
FAÇA DE CONTA QUE VOCÊ NUNCA VIVEU NADA! EXPERIÊNCIA NÃO SE PASSA! FIQUE SÓ OBSERVANDO OS ERROS E NÃO SE META, A MENOS QUE ALGUÉM PEÇA A SUA OPINIÃO, RESISTA À VONTADE DE DA-LA... TUDO O QUE É DE GRAÇA, NÃO TEM VALOR!
Deixe que a "humildade" seja a sua marca mais forte.

9 - Os cabelos brancos não lhe dão o privilégio de ser ranzinza e inconveniente.
Lembre-se de que toda paciência tem limite, e que não há nada mais desagradável do que alguém desejar a sua morte. Aprenda jogar xadrez, usar o MSN, ORKUT... OU OCUPE SUA MENTE COM OUTRAS COISAS! NÃO ENCHA O SACO DOS OUTROS

10 - Não seja repetitivo, contando a mesma história três, quatro, cinco vezes.
Quem olha só para o passado, tropeça no presente e não vê a passagem para o futuro.
FIQUE DE BOCA FECHADA E VOCE SERÁ UM SÁBIO!
LEMBRE-SE QUE VOCÊ TEM DOIS OUVIDOS E UMA BOCA SÓ: ISSO NÃO É POR ACASO!

(Desconheço o autor)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

AS POSSIBILIDADES PERDIDAS

Definitivo, como tudo o que é simples, nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade interrompida.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais. "

(Martha Medeiros)



"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida, está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade."

(Mary Cholmondeley)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

REFLEXÕES

Fui criada com princípios morais comuns. Quando criança, ladrões tinham a aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação à segurança era a de que os "lanterninhas" dos cinemas nos expulsassem devido às batidas com os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos filmes, nas matinês de domingo.

Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto.


Inimaginável responder deseducadamente a policiais, mestres, aos mais idosos, autoridades. Tínhamos medo apenas do escuro, de sapos, de filmes de terror.

Confiávamos nos adultos porque todos eram pais e mães de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade.

Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo que perdemos. Por tudo que meus netos um dia temerão. Pelo medo no olhar de crianças, jovens, velhos e adultos


Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidade de notícias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo comercial.

Agentes de trânsito multando infratores são exploradores, funcionários de indústrias de multas. Policiais em blitz são abuso de autoridade. Regalias em presídios são matéria votada em reuniões. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos.

Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo, anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos. O que aconteceu conosco?

Professores surrados em salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Crianças morrendo de fome. Que valores são esses? Carros que valem mais que abraço, filhos querendo-os como brindes por passar de ano. Celulares nas mochilas dos recém saídos das fraldas. TV, DVD, vídeo-games...O que vai querer em troca desse abraço, meu filho?


Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais valem dois vinténs do que um gosto.

Que lares são esses? Jovens ausentes, pais ausentes. Droga presente. E o presente? uma droga!O que é aquilo? Uma árvore, uma galinha, uma estrela, ou uma flor? Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo?


Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem sentir medo? Quando foi que me fechei?

Quero de volta a minha dignidade, a minha paz.

Quero de volta a lei e a ordem.

Quero liberdade com segurança!

Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores!

Quero sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão.

Quero a honestidade como motivo de orgulho.

Quero a vergonha, a solidariedade.

Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho.

Quero a esperança, a alegria.

Teto para todos, comida na mesa, saúde a mil.

Quero calar a boca de quem diz: " a nível de", enquanto pessoa.

Abaixo o "TER", viva o "SER"!

E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa. E definitivamente comum, como eu. Adoro o meu mundo simples e comum. Vamos voltar a ser "gente"? Discordar do absurdo. Ter o amor, a solidariedade, a fraternidade como base A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito...

Construir sempre um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas.

Utopia? Não......hein?

Quem sabe?......se você e eu fizermos nossa parte e contaminarmos mais pessoas, e essas pessoas contaminarem mais pessoas..


(Sara Maria Binatti dos Anjos )

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Quanto vale a sua vida?

Peça para um publicitário descrever um botão de camisa. Você ficará deslumbrado com tantas funcionalidades que ele vai achar para o botão e vai até mudar o seu conceito sobre o pobre botãozinho.

Peça para uma pessoa apaixonada descrever a pessoa amada, aquela pessoa bem "feiazinha" que você conhece desde a infância e vai até pensar que ele está falando de outra pessoa. O apaixonado enche a descrição de delicadezas, doçura e gentilezas, transformando a fera em bela em instantes.

Peça para o poeta descrever o sol e a lua, e você vai se encantar pelos poderes apaixonantes da lua, pela beleza do sol que irradia seus raios como se fossem gotas do milagre divino no arrebalde da tarde quente onde o amor convida os apaixonados para viver a vida intensamente.
Peça para um economista falar da economia mundial e tome uma lição de números e mercados, bolsas e câmbios oscilantes, inflação e mercados emergentes, e se não sair de perto, vai acreditar que, em breve, teremos a maior recessão da história e que a China é o melhor lugar do mundo para se viver agora,

Peça para uma pessoa desanimada ou depressiva falar da vida, do sol, da lua, dos botões, das rosas e do amor para você ver.  Pegue um banquinho e um lenço e sente-se para chorar. É só reclamação, frustração, dores, misérias e desconfiança geral. Você sente a energia lhe contaminando, vai fazendo mal, vai lhe deixando sem forças, porque os desanimados, os reclamões e depressivos tem o poder vampiresco de sugar energias do bem e transformar em medo. E o medo paralisa as pessoas de tal forma que fica difícil até o mais simples pensar.

E você? Como é que você descreve a sua vida?
Quem é você para você mesmo?
Como seria um comercial da sua vida?
Como você venderia o produto "você"?
Você é barato, tem custo acessível ou é daquelas figuras caras,
daquelas que não tem tempo para perder com a tristeza e com o passado? Você tem 1001 utilidades? aliás, você vive em que século mesmo?
São os seus olhos que refletem  o que vai na sua alma, e o que vai na sua alma se reflete na qualidade de vida que você leva.
É o seu trabalho que representa o seu talento, ou não?
Por isso, não tem outro jeito, seja o melhor divulgador de você mesmo, valorize-se, esteja sempre pronto para dar o seu melhor, com seu melhor sorriso, com sua melhor roupa, com seu melhor sentimento, com suas melhores intenções, com sua gentileza sempre pronta para entrar em ação. Seja Omo, Brastemp, Lux de luxo, e se for chocolate, que seja logo Godiva, suíço e caro, porque gente especial igual a você não existe em nenhum mercado, e tem que valer sempre mais.
Valorize-se! não importa o que você faz, importa sim como você faz. isso sim, faz toda a diferença

(Paulo Roberto Gaefke)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O MUNDO NÃO É MATERNAL

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto.
Quando se é adolescente pensa que viveria melhor sem ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfaõs de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se viramos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.
O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por 20 anos.
O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência, e estoure o cartão de crédito.

Mãe também quer que a gente tenha boa aparência mas está mais preocupada com o nosso banho, com o nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna.
Não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.

O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso batimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos, para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta.
O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa. O mundo quer nosso voto mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego.

Para o mundo, quem menos corre, voa.
"Quem não se comunica se trumbica.
Quem com ferro fere, com ferro será ferido."
O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas...

Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Mãe sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto o mundo propriamente dito, exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça!!!

(MARTHA MEDEIROS)

Férias na Bahia

Placa na entrada do túnel de bambu, na saída do aeroporto de Salvador: Sorria, você está na Bahia. Nem precisava.
Com a partida de Jorge Amado e depois de Dorival Caymmi, foi-se uma boa parte do espírito da Bahia do século 20. A cidade cresceu e se modernizou, conseguiu integrar as suas manifestações mais primitivas, dos tambores, dos blocos afro e do próprio carnaval, à alta tecnologia dos trios elétricos e da indústria da alegria em que se transformou o turismo baiano.

Como já cantava Gordurinha nos anos 50, "pau que nasce torto não tem jeito morre torto, baiano burro garanto que nasce morto". Ou, como me disse Dorival Caymmi, quando lhe perguntei se ele queria ensaiar antes de um programa de TV: "Baiano já nasce ensaiado, meu filho."

Mas continuam vigorando os quatro tempos de qualquer atividade na Bahia: lento, lentíssimo, devagar-quase-parando e dorival-caymmi.

Carlinhos Brown desconstrói a lenda da preguiça local:
"Baiano é como avião a jato. Você olha ele de longe no céu, parece que está parado; chega perto e ele ... zum!"
Davi Moraes reclamou com a baianinha que ela havia posto açúcar no suco de laranja que ele pedira sem. E ela, toda dengosa: "Mexa não."

O que a alguns pode parecer exibicionismo, para os baianos, é apenas exuberância. Daí que eles não nascem, estreiam. E não morrem, saem de cena. Consequentemente, a Bahia não tem plateias, mas coadjuvantes. Não tem povo, tem elenco. É tal o sucesso da música baiana que se suspeita que a Bahia seja uma grande gravadora disfarçada de Estado.

Outro diferencial baiano vem da cultura do candomblé, uma religião sem pecado e sem culpa, onde os santos, as entidades, até intermedeiam romances e inspiram cantadas originais:
"Meu Oxóssi está doidinho pela sua Oxum."

Também se atribui à cultura do candomblé uma maior tolerância e liberdade sexual. Pode-se perguntar com naturalidade à amiga que diz que adora namorar:
"Menino ou menina?"
"Oxente, sou multimídia."

(Nelson Motta)

domingo, 1 de maio de 2011

Poema de Milarepa

A pintura dourada se desbota com o tempo,
as lindas flores do campo logo fenecem,
os pálidos raios da lua logo se devanecem,
o rio caudaloso dilui-se no mar,
o arroz que cresce no vale logo é colhido,
o filho querido cresce e logo se vai para sempre.

Isto mostra a transitoriedade de todas as coisas.
Isto prova a impermanência de todas as coisas.
Pense e você tomará consciência.

Estas são as comparações que canto,
espero que você se recorde sempre.
Preocupações e sofrimento sempre existirão,
então deixe-os de lado,
e viva segundo esta grande consciência.