terça-feira, 27 de junho de 2017

Reflexões sobre os desígnios de Deus

Imagine uma lagarta. Passa grande parte de sua vida no chão olhando os pássaros, indignada com seu destino e com sua forma. “Sou a mais desprezível das criaturas”, pensa. “Feia, repulsiva, condenada a rastejar pela terra”.
Um dia, entretanto, a natureza pede que faça um casulo. A lagarta se assusta, pois jamais fizera um casulo antes. Pensa que está construindo seu túmulo e prepara-se para morrer.
Embora indignada com a vida que levou até então reclama novamente com Deus. “Quando finalmente me acostumei, o Senhor me tira o pouco que tenho”.
Desesperada, tranca-se no casulo e aguarda o fim. Alguns dias depois, vê-se transformada numa linda borboleta. Pode passear pelos céus e ser admirada pelos homens. Surpreende-se com o sentido da vida e com os desígnios de Deus.
Paulo Coelho

sexta-feira, 5 de maio de 2017


"Quando falares cuide para que suas palavras sejam melhores que o silêncio." 

(provérbio indiano) 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Saudade


um silêncio
sem vírgulas
um texto
sem palavras
um corte
sem pontos
uma linha
ponte ilhada
(Chris Herrmann)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Ceará com C

Ceará complicado! Chuva caía contada. Cearense chorava. Caboclo, coitado: chapéu caído, couro curtido, caminhava... Cidade, campo, caatinga, corpos, caveiras, calor. Cadê comida, cadê chuva? Ceará conheceu calamidades! Cai chuva. Chove, chove, chove, conclusão: caem casas, colheitas carregadas, crianças chorando, caboclos correndo, chega! Compensa! Chuva, céu claro, chuva, céu claro. Controlando com camaradagem, com caridade, custa? 
Cearense, cabra cavador: chega, conversa, controla, com calma... conquista. Começa caixeiro - comerciário; cresce, cresce, comanditário; cresce, cresce, caixa; cresce, cresce... capitalista! Carteira cheia, com cruzeirinhos cantando! Compra carro colossal - Cadillac; compra casa - castelo; compra concubina - corista; corre capitais, centros culturais, cassinos, cabaréis... Cearenses coronéis!
Cearense casa, casa com cearense. Com cearense carinhosa, caridosa, cavilosa, criadora... Companheira constante, carinho constante, cegonha constante!
Cearense, cabra corajoso! Com casquinha, construída com cinco cacos, cipó carcomido, contorna costa, cruza correntezas, caminha... cação; começa combate: carrega, cruza, consegue. Consegue comida. Calos, cortes, compensam: casas cheias, cangalhas carregadas.
Ceará colosso. Colosso? Como colosso? Ceará continente! Café, cacau, coco, cana, carnaúba, caju, cachaça. Celebridades, citaria cinquenta. Cem celebridades cearenses. Ceará cristão, católico, convicto. Ceará Crato, Crateús, Camocim, Cascavel, Ceará Capistrano, Ceará Cícero. Ceará... Chico.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"– Você não deve se assustar nunca, com as dificuldades. Nós somos sim capazes de superar a todas elas. Tudo o que precisamos são três coisas: tempo para compreender a situação, inteligência para buscar o melhor caminho, e coragem para seguir em frente. - Papa Francisco"



"O homem que perde a esperança perde-se a si mesmo, porque a esperança pertence à sua essência. A esperança está em tudo. O viver tem a esperança do ser. O sonho tem a esperança da realização. O trabalho tem a esperança do resultado e do pagamento. O olhar furtivo tem a esperança do sorriso malicioso. A piada tem a esperança do riso. A música tem a esperança da emoção. O beijo roubado tem a esperança do beijo apaixonado..." (Eugenio Mussak)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

SIMPLICIDADE
Martha Medeiros
Cada semana, uma novidade.A última foi que pizza previne câncer do esôfago.Acho a maior graça.Tomate previne isso,cebola previne aquilo,chocolate faz bem,chocolate faz mal,um cálice diário de vinho não tem problema,qualquer gole de álcool é nocivo,tome água em abundância,mas,peraí,não exagere...
Diante desta profusão de descobertas,acho mais seguro não mudar de hábitos.Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.Prazer faz muito bem.Dormir me deixa O Km. Ler um bom livro,faz-me sentir novo em folha.Viajar me deixa tenso antes de embarcar,mas,depois,rejuvenesço uns cinco anos!
Viagens aéreas não me incham as pernas;incham-me o cérebro,volto cheio de idéias!Brigar, me provoca arritmia cardíaca.Ver pessoas tendo acesso de estupidez,me embrulha o estômago!Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano...
E telejornais...Os médicos deveriam proibir...como doem!
Caminhar faz bem,namorar faz bem,dançar faz bem,ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem:você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.Acordar de manhã arrependido do que fez ontem à noite,isso sim,é prejudicial à saúde.E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas,pior ainda.Não pedir perdão pelas nossas mancadas,dá câncer,guardar mágoas,ser pessimista,preconceituoso ou falso moralista,não há tomate ou muzzarela que previna!
Ir ao cinema,conseguir um lugar central nas fileiras do fundo,não ter ninguém atrapalhando sua visão,nenhum celular tocando e o filme ser espetacular,UAU!!Cinema é melhor pra saúde do que pipoca.Conversa é melhor do que piada.Exercício é melhor do que cirurgia.Humor é melhor do que rancor.Amigos são melhores do que gente influente.Economia é melhor do que dívida.Pergunta é melhor do que dúvida.Sonhar é muito melhor do que nada.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Pai Nosso

Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,

Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,

Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,

Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no vôo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,

Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dessemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego e o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,

Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,

E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,

Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,

Amemos.

Frei Betto.

Há tantos diálogos
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro
Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.
(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 22 de outubro de 2016

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando

domingo, 7 de agosto de 2016

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Aniversário...

 "Quantos anos tenho?! Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo. Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança. Tenho os anos em que o amor, as vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no Fogo de uma paixão desejada. E, outras vezes, é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia... O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta? O que importa é a idade que sinto...."
José Saramago

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Amigo é casa

Amigo é feito casa que se faz aos poucos 
e com paciência pra durar pra sempre 
Mas é preciso ter muito tijolo e terra 
preparar reboco, construir tramelas 
Usar a sapiência de um João-de-barro 
que constrói com arte a sua residência 
há que o alicerce seja muito resistente 
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger 
E há que fincar muito jequitibá 
e vigas de jatobá 
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de
resedás 
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar 
que os cabelos brancos vão surgindo 
Que nem mato na roceira 
que mal dá pra capinar 
e há que ver os pés de manacá 
cheínhos de sabiás 
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis 
choro de imaginar! 
pra festa da cumieira não faltem os violões! 
muito milho ardendo na fogueira 
e quentão farto em gengibre 
aquecendo os corações 
A casa é amizade construída aos poucos 
e que a gente quer com beira e tribeira 
Com gelosia feita de matéria rara 
e altas platibandas, com portão bem largo 
que é pra se entrar sorrindo 
nas horas incertas 
sem fazer alarde, sem causar transtorno 
Amigo que é amigo quando quer estar presente 
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber 
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar, 
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer 
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha 
e oferece lugar pra dormir e comer 
Amigo que é amigo não puxa tapete 
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem 
quando não tem, finge que tem, 
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.
(Herminio Bello de Carvalho)

quarta-feira, 25 de maio de 2016

CANTARES

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e grená, voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar”…

Golpe a golpe, verso a verso…

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe viram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.
(Antônio Machado)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

 "Ensinarás a voar... Mas não voarão o teu voo.
 Ensinarás a sonhar... Mas não sonharão o teu sonho.
 Ensinarás a viver... Mas não viverão a tua vida.
 Ensinarás a cantar... Mas não cantarão a tua canção.
 Ensinarás a pensar... Mas não pensarão como tu.  

 Porém, saberás que cada vez que voem, sonhem, vivam, cantem e pensem... estará a semente do caminho ensinado e aprendido!"
Madre Teresa de Calcutá

domingo, 1 de maio de 2016